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Dificuldades no processamento de IA

Em 1972, o filósofo Hubert Dreyfus publicou um livro chamado ‘Uma crítica da Razão Artificial’, no qual examina o desenvolvimento da Inteligência Artificial. Com respeito ao desenvolvimento dos primeiros trabalhos, diz Dreyfus “Todos os trabalhos tinham em comum um início auspicioso, para em seguida, esbarrar em dificuldades intransponíveis. Não era difícil construir um programa que realizasse certa tarefa, mas parecia impossível fazer o programa realizá-la bem, isto é, torná-lo competitivo, em termos de qualidade com o ser humano”.

Em virtude desses fatos, Dreyfus conclui que os pesquisadores em IA baseavam, mesmo que implicitamente, seus trabalhos em quatro pressupostos falsos:

  • Pressuposto biológico: o cérebro pode ser modelado por um computador digital.
    O cérebro humano possui, pelo menos, 10 vezes mais conexões do que qualquer computador: além disso, o processamento do cérebro apresenta certas características, tais como, diversidade, simultaneidade, interatividade, que os computadores não possuem.
  • Pressuposto psicológico: a mente pode ser simulada por um programa.
    Esse pressuposto fica claro em algumas firmações da época: “Em 10 anos, as teorias psicológicas assumirão a forma de um programa de computador” (Simon, 1975); “A tarefa de um psicólogo que tenta compreender a cognição humana é análoga a de alguém que tenta descobrir como um computador foi programado” (Neisser, 1959). Não sabemos o suficiente sobre a mente humana para decidir se pode ou não ser simulada por um programa.
  • Pressuposto epistemológico: todo conhecimento pode ser formalizado.
    O conhecimento científico certamente pode ser formalizado, mas o conhecimento comum, não. O exemplo mais claro é o da linguagem: é possível (e simples) ao ser humano compreender uma frase em que uma regra gramatical foi infringida, mas é impossível programar um computador para que compreenda infração de regras (seria necessário incluir regras gramaticais, meta-regras, meta-meta-regras, e assim por diante).
  • Pressuposto ontológico: existem “átomos” de conhecimento.
    Em outras palavras, tudo que é essencial para o comportamento inteligente deve, em princípio, poder ser expresso em termos de um conjunto de elementos independentes – os átomos de conhecimento. Se esses átomos de conhecimento existissem, todo comportamento humano poderia ser precisamente descrito, o que, pelo menos até hoje, se revelou impossível.

Características que resistem à formalização

Deyfrus estabeleceu quatro tipos de processamento humano que resiste a formalização e que inviabiliza todo programa que tem por objetivo a sua simulação.

  • Consciência marginal
    Tipo de processamento secundário do cérebro humano e que as pessoas raramente se dão conta. Eis alguns exemplos: o tique taque de um relógio, que só é percebido quando para; a percepção de um rosto conhecido na multidão, mesmo quando não está sendo procurado.
  • Tolerância à ambigüidade
    O ser humano utiliza o contexto para reduzir a ambigüidade, sem que necessite uma formalização para tal. Por exemplo, reconhecimento de escrita cursiva, compreensão de frases como: “ele segue Marx” ou “o trem saltou da linha”.
  • Discriminação essencial/ não essencial
    Na resolução de um problema, o ser humano descarta imediatamente o conhecimento não essencial. Por exemplo, em um diagnóstico médico, pode-se descartar o nome do paciente. Decidir o que é “não essencial” é extremamente difícil de formalizar.
  • Reconhecimento de similaridades
    É possível reconhecer um amigo na rua, mesmo que não o vejamos há muito tempo. Seu rosto, embora diferente, apresenta certa similaridade com o que conhecemos. Não é fácil formalizar esse conceito de similaridade.

Classificação das atividades inteligentes

Deyfrus propõe uma classificação das atividades do pensamento, em quatro áreas, de acordo com a maior ou menor utilização de inteligência, e os procedimentos computacionais adequados para sua solução.

1) Área I

Comportamento associativo elementar – onde o significado e o contexto são irrelevantes.

Exemplos:

- jogos de memória associativa
- jogos resolvíveis por tentativa e erro.
Solução:
- busca em tabelas
- árvores de decisão
- gabaritos
- probabilidade.

2) Área II

Comportamentos formais simples – onde o significados são completamente explícitos e independentes do contexto.

Exemplos:

- jogos computáveis ou quase computáveis (jogo da velha, damas)
- problemas combinatórios simples (problema do labirinto)
- prova de teoremas utilizando procedimentos mecânicos (lógica formal)
- reconhecimento de configurações rígidas simples (leitura de pagina impressa).

Solução:

- procedimentos exaustivos de busca.

3) Área III

Comportamentos formais complexos – onde os significados não são totalmente explícitos, nem totalmente independentes do contexto.

Exemplos:

- jogos incomputáveis (xadrez)
- problemas combinatórios complexos (planejamento)
- demonstrações de teoremas que exijam procedimentos não mecânicos, como a intuição
- reconhecimento de configurações complexas (fotografia por satélite).

Solução:

- busca heurística.

4) Área IV

Comportamentos não formais – onde os significados não são explícitos e dependem completamente do contexto.

Exemplos:

- problemas mal definidos (charadas)
- problemas de estrutura aberta onde não são claras as condições relevantes (diagnóstico médico)
- tradução de linguagem natural
- reconhecimento de configurações variadas e alteradas (fala, escrita cursiva, paisagem natural, aprendizado).

Solução:

Não há procedimentos que resolvam completamente esses problemas. A solução atual é restringir o problema a uma porção pelo menos parcialmente formalizável e enquadrá-lo na Área III.

 

 
 
 
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